Jorge Ben Jor em São Paulo: a celebração de uma carreira impecável

Resenha do show de Jorge Ben Jor em São Paulo, no NuBank Park em 17/10/2026
Estive, no último sábado, 17/10, no NuBank Park, em São Paulo para conferir um show daquele que considero, sem rodeios, o maior nome da música brasileira.
A última vez que eu o havia visto ao vivo, foi em 2012 numa casa de shows bem menor. Foi um espetáculo de quase 3 horas com energia pulsante e dançante até o fim.
Agora, 14 anos depois, pensei que a idade poderia impactar o músico de alguma forma, mas eu estava errado. Não canso de me surpreender em como a idade parece só um detalhe numérico para alguns artistas, como Paul McCartney e Jorge Ben Jor. Com nada menos que 87 anos, o espetáculo da vez não ficou nada a dever ao que vi há quase 15 anos.

Foram 2 hora e meia de muita música que, com exceção de uma duas mais lentas, não deixou o estádio parado. Em hits como Fio Maravilha, WBrasil e Taj Mahal, o espaço parecia uma imensa panela de pipoca. Todo mundo pulava, gritava, sacudia e celebrava uma das carreiras mais longevas e criativas da música. E Jorge Ben tem tantas músicas que é difícil selecionar um setlist de 2 horas. Por sorte, o experiente músico improvisou várias canções que se emendavam, conseguindo abarcar boa parte da carreira, desde o primeiro disco (o revolucionário Samba Esquema Novo, de 1963), com O Telefone Tocou Novamente.
Para a alegria dos fãs mais intensos, A Tábua de Esmeralda (de 1974) teve boa parte das faixas executadas: Os Alquimistas Estão Chegando, Magnólia, Menina Mulher da Pele Preta e até a extremamente viajante e psicodélica Errare Humanun Est.

Mas foi em Zumbi que presenciei um dos pontos mais altos e inesquecíveis, em que um grupo de dança se apresentou por longos minutos, acompanhados do arranjo de hipnótico de cordas, em especial do violino. Absurdamente incrível.
O Soul noventista de Alcohol, trouxe outro momento especial, além do suíngue maravilhoso: Jorge Ben se emocionou e chorou diante das mais de 50.000 pessoas. Os versos finais "Eu gosto tanto de vocês" foram repetidos com lágrimas nos olhos por trás dos inseparáveis óculos escuros. Arrepiante.
A festa final com Taj Mahal foi mais uma surpresa, com diversos convidados no palco, como Samuel Rosa, Edi Rock e Baby Consuelo. "São meus amigos" vangloriou-se o artista, com toda razão. Amigos e fãs, diga-se de passagem. Não há um músico sério brasileiro que não seja fã.
Não era uma despedida, pelo menos não anunciada. Mas tinha todo o clima. E talvez por isso foi tão especial.

Política atrapalhou um pouco
Com a proximidade do segundo turno das Eleições é normal que o público esteja disposto a clamar por seu voto à todo momento. A vasta maioria no estádio declarava voto em Lula e muitos coros de "Olê Olê Lula Lula" foram entoados em diversos momentos. Mas um em especial foi totalmente deselegante. No final de Taj Mahal, quando parecia que Ben Jor ia fazer mais um discurso emocionado, os gritos começaram novamente. O cantor, que tradicionalmente não se posiciona politicamente, resolveu então encerrar de vez: "Obrigado, até a próxima".
Fora esse episódio e uma certa desorganização para entrar no NuBank Park, foi um show inesquecível, à altura da importância do mestre Ben Jor.




