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Felipe Perazza, também conhecido como Andarilho, é profissional de marketing, designer e artista. Atua no mercado de comunicação e marketing há mais de 15 anos e como ilustrador independente. É também autor de 3 livros. O último deles, A Música dos Deuses, foi lançado em 2025 e conta uma história de fantasia com ilustrações próprias. É também o apresentador do Canal Felipe Andarilho - Arte e Design no Youtube que já conta com mais de 30 mil inscritos.

Considerações sobre o final de The Witcher nos livros de Andrezej Sapkowski

Foto do escritor: Andarilho Design
Andarilho Design
há 10 minutos
7 min de leitura
Livros The Witcher em português

Texto originalmente publicado no Medium.


Há alguns meses, terminei de ler a saga do bruxo Geralt de Rívia nos livros de Andrezej Sapkowski e, como costuma acontecer com essas grandes sagas, fica aquela vontade de discutir e conversar sobre o final com quem já leu. O problema? Não conheço ninguém que tenha lido e na internet não há muitos tópicos sobre o tema em português. Pensando nisso, resolvi criar esse artigo para que outros leitores possam encontrá-lo e, aí sim, podermos discutir sobre.


Obviamente, esse texto contém spoilers do desenrolar e, principalmente do final da trama, que se estende ao longo de 7 livros. Portanto, só recomendo a leitura, caso você os tenha lido ou, realmente, queira saber do final.


(Caso prefira, você pode conferir o conteúdo em vídeo desse artigo aqui abaixo)



Aviso dado, agora é por sua conta e risco.


Geralt em versão do jogo the Witcher 3: Wild Hunt
Bruxo Geralt de Rívia, em sua versão nos games.

Antes do final de The Witcher... Um resumo rápido da trama


Caso você só tenha contato com The Witcher pelos games maravilhosos da CD Projekt Red, vamos recapitular rapidamente.


A saga do bruxo Geralt de Rívia gira em torno da sua busca em encontrar e proteger uma garota chamada Cirila. Ambos se conhecem pela força do destino: ao salvar a vida de um cavaleiro chamado Duny, Geralt invoca a Lei da Surpresa, uma tradição no universo da obra em que alguém que tem a sua vida salva por outra pessoa, deve entregar como recompensa “algo inesperado”. Na maioria dos casos, esse algo se resume à uma criança que ainda vai nascer.


Esse trecho se encontra no primeiro livro da saga, O Último Desejo, (veja uma resenha em vídeo dele aqui), mais precisamente no conto Uma Questão de Preço. Na série da Netflix, isso se passa na primeira temporada.


É assim que Geralt e Ciri passam a ter uma relação próxima a de pai e filha, alguns anos mais tarde.


Geralt e Ciri em versão Netflix
Geralt e Ciri, na versão cinematográfica da Netflix

Os problemas surgem quando Geralt descobre que há muita gente interessada na menina. Reis, feiticeiros, mercenários. Muita gente parece disposta à tudo para colocar as mãos na garota e o bruxo só pode contar com alguns poucos amigos nessa saga, dentre eles Yennefer, uma feiticeira por quem ele é apaixonado e Jaskier, um bardo a quem ele odeia amar.


Em certo ponto da aventura, lá pelo quarto livro, Tempo de Desprezo, Ciri de fato é separada de Geralt e suas aventuras passam a ser contadas em subtramas diferentes. De um lado o bruxo sai com amigos em busca dela. Do outro, Ciri foge de todos que a perseguem, passando por um verdadeiro inferno onde quer que se meta. Onde a menina vai, morte, dor e frustração parecem acompanhá-la de perto.


Esse enredo de aventuras, mortes e decepções nos acompanha nos livros 5, 6 e 7 da saga.


Já próximo do final…


(Sua última chance de não ter spoilers pesados é encerrar aqui)


O 7º livro, A Senhora do Lago, por fim, traz o desenlace final da trama, com Geralt e Ciri finalmente se encontrando, mas não sem uma última e terrível batalha que deixa o bruxo mortalmente ferido.


Ilustração de Ciri por Felipe Andarilho
Minha versão da Ciri, inspirada em uma cena do 6º livro

Yennefer, a feiticeira, par romântico e uma das poucas aliadas do guerreiro também é ferida nesse embate que só termina com uma magia poderosíssima invocada por Triss Merigold com a ajuda da própria Yen.


Chegamos então na cena final. O palco: a beira de um lago em Rívia. Geralt e Yen jazem moribundos enquanto Ciri, Jaskier, Zoltan e Triss, impotentes, apenas olham.


Chega então uma figura misteriosa e lendária em cena. Ihuarraquax (é esse nome mesmo), um unicórnio que já cruzou o caminho de Ciri duas vezes antes na saga e que a ajudou a dominar seus poderes de viajar pelo tempo espaço, aparece com uma barca.


O casal é colocado pelos amigos no barquinho e Ciri parte com eles, conduzidos pelo unicórnio através da névoa do lago até sumirem no horizonte.


Ilustração criada com IA da cena final dos livros: unicórnio trazendo o barquinho
Ihuarraquax trazendo o leito dos heróis

O livro encerra-se com 2 cenas adicionais. Em uma delas, Yen e Geralt estão deitados na grama, finalmente descansando após tantas batalhas. Na outra, Ciri encontra um cavaleiro chamado Galahad, a quem conta toda sua história e com quem segue para novas aventuras.


Fim


Mas o que esse fim guarda em seus segredos? Yen e Geralt morreram? Ou foram para onde? E quem é esse tal de Galahad? O que aconteceu com os demais? E com o unicórnio?


É sobre isso que, finalmente, vamos falar agora.


Antes de divagar sobre o final, é importante ressaltar que A Senhora do Lago é fortemente inspirado pelo mito do Rei Arthur. O próprio título da obra traz uma das mais importantes figuras arturianas. Nimue, em algumas versões da lenda, é uma das sacerdotisas pagãs que acompanham Merlim, o icônico mago. Em outras, ela é a Senhora do Lago, uma espécie de divindade que habita as águas de Avalon e quem entrega a espada Excalibur para o Rei Arthur.


(Curiosidade: há uma Dama do Lago no jogo Witcher 1, mostrando que o pessoal dos games também estava de olho nessa referência.


Ilustração da Senhora do Lago do mito arthuriano
Ilustração de uma das cenas mais icônicas do mito Arthuriano, quando a Senhora do Lago entrega Excalibur ao rei.

Nesse 7º livro da saga, conhecemos logo nas primeiras páginas, uma nova versão de Nimue. À princípio é possível supor que a feiticeira vive num período bastante posterior aos acontecimentos da aventura The Witcher, de modo que as aventuras de Geralt e Ciri adquiriram aqui o status de lenda. A obsessão da maga então é reconstruir a saga com o máximo de detalhes possível. Para isso ela conta com a ajuda de Condwiramus, uma oniromante, ou seja, alguém com capacidade de sonhar acontecimentos passados.


Ao longo do livro vamos conhecendo, por meio dos sonhos reconstruídos de Condwiramus, como a lenda ocorreu de fato. E como a história se cruza ou até mesmo se mescla com a do Rei Arthur.


O final da saga de Arthur também termina com um barco, numa cena bastante semelhante à de The Witcher. Após uma batalha contra Mordred, o usurpador, o rei severamente ferido, é colocado num barco e enviado para o cuidado dos deuses, encerrando a saga que deixa à cargo do leitor a interpretação sobre seu destino. Afinal, o rei morreu ou foi salvo e curado? Ninguém sabe. E é aí que reside a magia. Dizem até hoje que o Rei está descansando em algum local, pronto para ressurgir quando houver necessidade.


Com o bruxo e sua companheira, é a mesma ideia. Morreram? Foram para o além vida? Se recuperaram? Estão vivendo felizes para sempre? Cada um pode decidir o que lhe aprouver.


Cena de O Senhor dos Anéis
Outros heróis também tomaram o mesmo caminho

Curiosidade: qualquer semelhança com o final de outro épico, O Senhor dos Anéis, não é mera coincidência. O destino de Gandalf e Frodo, também num barco, afinal, é decidido por nós. Se chegaram à Valinor e o que lá ocorreu fica à cargo da nossa imaginação.


Gosto de pensar, nos três casos, que os heróis encontraram a paz. Não necessariamente no além vida. Mas a paz do anonimato, um descanso merecido e terreno, após tantas batalhas.


Mas e Ciri?


A garota encontra Galahad logo no começo da obra e termina o livro cavalgando ao seu lado.


Galahad, nos mitos arturianos, é associado com uma figura justa e benevolente. O cavaleiro perfeito à diferença de seu irmão (ou parente, a depender da versão) Lancelot, contaminado pelo amor proibido.


Sendo assim, sabemos pelo menos que a garota está em boas mãos. Depois de tantos bandidos e facínoras com quem teve que lidar (Bonhart, Skelen, Rience, Vilgefortz e por aí vai), finalmente há alguém ao seu lado que não pretende matá-la.


E o destino do mundo? E o frio devastador? Como fica?


Ao longo da obra somos constantemente informados de um destino terrível e iminente que assola o mundo: a Profecia de Itlina. Segundo a previsão dessa lendária elfa vidente, o mundo encontraria seu fim com a chegada de um frio absoluto associado à mudanças climáticas.


De acordo com algumas interpretações, somente uma figura, escolhida pelos deuses, descendente do sangue antigo poderia salvar o mudo desta ameaça. Por esse motivo, inclusive, há alguns personagens perseguindo (e eventualmente aprisionando) Ciri.


Ora, se a garota termina a saga com Galahad, podemos supor que abdicou de seu papel forçado de salvadora do mundo.


Isso quer dizer que o mundo vai acabar? Sim e não.


Sim, pois o frio vai chegar, conforme previu Itlina. Isso fica evidente em uma conversa entre Nimue e Condwiramus em que a segunda diz que sonha frequentemente com um deserto de gelo, sem vida. Nimue explica, então, de modo bastante lógico e didático sobre as mudanças climáticas que já estão ocorrendo. Nimue inclusive atesta que “a civilização morrerá por culpa da Destruidora, que podia, tinha a possibilidade de abrir o caminho de resgate. Mas como sabemos pela lenda, não fez”.


Então sim, o mundo vai acabar.


E não, por que ele não vai acabar. Pelo menos não literalmente. O que provavelmente ocorrerá é uma era glacial, que transformará o mundo e a civilização, a exemplo do que ocorreu com o nosso próprio planeta há milhares de anos.


Não foi o fim do ser humano, mas um episódio que contribuiu para sua evolução.


Geralt em The Witcher 3 observando a paisagem gelada de Ard Skellige
Vai ficar mais frio que em Ard Skelllige

Sendo assim, a abdicação de Ciri como figura salvadora não é um atestado de óbito ao mundo. É simplesmente deixar as coisas acontecerem.


É, no fim das contas, agir como o próprio bruxo Geralt costuma fazer: não se envolver. Deixar as coisas fluírem. “Eu me recuso a escolher o mal menor”, disse ele em mais de uma ocasião. E se o mal menor envolve me unir de forma forçada com algum rei, engravidar do seu filho supostamente predestinado, enchê-lo com a responsabilidade de salvar o unierso e, de quebra carregar mais destruição e mortes nas costas, tendo a concordar com o bruxão.


Eu, pessoalmente, fico feliz com o desfecho da personagem.


Não foram poucos os percalços que ela passou por essa obsessão de gente alheia cismando em dizer que ela deveria fazer isso ou aquilo com base na teoria ou na profecia X ou Y. No fim, a libertação de Ciri é a grande vingança contra aqueles tantos que queriam impor à ela o seu destino. A garota agora está livre, de fato. Em outra era, outro momento. Os demais, como dizemos, que lutem.


Chegamos então ao final de A Senhora do Lago, alcunha que servia à Nimue e serve também agora à Ciri. “Senhora” pode ser entendido como dona, proprietária. E não há adjetivo melhor para aquela que tomou as rédeas da própria vida. Senhora Ciri para vocês.


FIM (de verdade)


Esse é o final dos livros e a minha interpretação sobre ele.


(Lembrando que o jogo mais famoso da saga, o The Witcher 3: Wild Hunt se passa anos após esses acontecimentos, mas ainda traz o mesmo dilema: gente péssima atrás da Ciri, Geralt procurando ela desesperadamente, risco de destruição do mundo e muitas guerras atrapalhando o caminho).


E você, que me acompanhou nesse texto que também ele é uma saga. O que achou do final dos livros The Witcher? Fica aqui então o espaço para conversarmos à respeito.


Vou adorar ouvir suas considerações.


Caso queira me acompanhar no YouTube, te espero por lá com vários vídeos sobre The Witcher e outras obras fantásticas.

 
 

Felipe Andarilho

Arte, Design, Comunicação e Marketing

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