O que Tolkien e Érico Borgo me ensinaram com o documentário Uma Odisseia Criativa.

Resenha do documentário Uma Odisseia Criativa: em Busca de Tolkien, lançado esse mês, idealizado por Érico Borgo e dirigido por Laís Almeida.

Conferi ontem o documentário Uma Odisseia Criativa: Em Busca de Tolkien, idealizado pelo Érico Borgo e dirigido por Laís Almeida.
Para quem não conhece, o Érico foi um dos fundadores do Omelete, um dos primeiros portais de notícias dedicados ao que hoje conhecemos como Cultura Pop: cinema, quadrinhos, música e afins.
Para quem era nerd naqueles primórdios da internet (eu tinha 12 anos em 1999, quando o site foi ao ar), o Omelete era um porto seguro. O local exato para desvendar os próximos filmes que viriam ao Brasil, ler críticas descontraídas e obter dicas de quadrinhos. Lembro de acessar o site religiosamente todos os dias e ler praticamente todos os artigos publicados.
Com o tempo o site cresceu, virou canal no YouTube e uma verdadeira potência multimídia. Foram eles que trouxeram a Comic Con de San Diego para o Brasil, no evento que ocorre todos os anos em São Paulo, a CCXP.
Apesar disso, conforme o Omelete crescia, eu sentia que me desconectava dele.
No começo tinha uma pegada de irmandade secreta. Um reduto só pros chegados. Mas o mundo seguiu adiante, como diria Roland Deschain. O marketing digital chegou, os influencers dominaram os conteúdos e os integrantes (cada vez mais numerosos) do Omelete se tornaram verdadeiros astros.
E eis que, no que seria o auge da empresa, um dos seus fundadores resolve sair. Como explicou em entrevistas e podcasts pelo YouTube afora, Érico nunca quis algo tão grandioso. O algoritmo também contribuiu: se antes adorava escrever e produzir conteúdo, perdeu a alegria quando descobriu que tinha que seguir as regras de um chefe invisível.
A admiração pelo Érico me fez acompanhá-lo em outras plataformas como o Linked-In e Substack. Foi por meio desses canais que descobri, há alguns anos que ele vinha produzindo um documentário sobre J.R.R. Tolkien.

A ideia do longa-metragem não era apenas contar a história do criador de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, mas sim entender sua mente criativa. Uma mente capaz de criar uma mitologia própria e que, sem exagero, viria a influenciar todo mundo que se ligasse em aventura e fantasia.
O filme, dirigido por Laís Almeida, é pura guerrilha apaixonada: Érico segue os passos de Tolkien acompanhado da diretora e do fotógrafo. Câmera na mão, microfone de lapela na camiseta e a história sendo contada diante dos cenários em que o lendário escritor passou. Com eles, visitamos as casas em que Tolkien cresceu, o campo de batalha em que lutou, as paisagens em que se inspirou, as árvores e pessoas que amou e vamos, aos poucos, entendendo como aquela mente genial funcionava.
Aprender sobre a criatividade de um escritor antigo teria tudo para ser enfadonho para um público menos fã, mas o filme é exatamente o oposto disso. A edição e a produção acertam em criar um dinamismo que mistura anotações, desenhos e textos grifados nas obras. Além disso a história é contada com o bom humor do Érico e cenas estilo making-of que geram cenas hilárias. Ri mais do que muito filme declaradamente de comédia.

Ri e (quase) chorei, claro, com trechos mais dramáticos como na parte da 1ª guerra, na qual Tolkien lutou e perdeu 2 grandes amigos, uma ferida que nunca se fechou completamente, como ele transportou para Frodo em O Senhor dos Anéis.
Ao final, fica um aprendizado emocionante de que a criatividade e a arte existem para serem apreciados. Para quem consome, mas principalmente, para quem faz. Tolkien levou dezenas de anos para publicar O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Fez as coisas com calma. Como queria. Como acreditava. A fama veio mais tarde, sem o imediatismo e a ansiedade que nos assombram nesses novos anos 20.
Vivemos numa época em que queremos que um vídeo de 1 minuto nos alce à fama mundial. Tolkien e Borgo me ensinaram, mais uma vez, que o sucesso é justamente se dedicar ao que se gosta. Com tempo. Com calma.




