A IA está te tornando mais BURRO
- Andarilho Design

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Cenário 1. Você precisa escrever um texto.
Pode ser um simples post pra sua mídia social ou um artigo mais elaborado para a faculdade. Não importa. Antes você se esforçava para encarar a folha em branco, construir as frases, revisar, polir, trocar palavras por sinônimos para enriquecê-lo, evitar redundâncias e pleonasmos. No fim de alguns minutos ou dias, dependendo do caso, tinha nas mãos uma pequena obra-prima. Original. Inédita. Só sua.
Hoje você pede para o ChatGPT. E veja que maravilha: em segundos o texto está pronto. No começo você até revisava. Vestia a camisa do gestor e encarnava o ensinamento dos gurus: "eu não faço, mas eu gerencio". Hoje, nem isso. Bate os olhos por cima e aceita. Dificilmente você faria melhor, é o que você acha. Certamente, não mais rápido.
Curiosidade: sabia que os textos gerados por IA são, na verdade uma média de vários textos similares? Ela lê 20 textos, tira uma média deles e cospe algo com cara de novo para você. Outro termo para algo na média é "medíocre".
Cenário 2. Você está com vontade de ouvir música.
Antes, você selecionava algum disco da sua prateleira, colocava para tocar enquanto folheava o encarte. Sentava no sofá ou deitava na cama, enquanto curtia o som. Aquele pequeno ritual servia como uma pausa, um momento de reconstrução no meio do dia atribulado.
Hoje você dá um play na primeira playlist que a IA do Spotify recomendar. E veja que maravilha: suas músicas preferidas estão todas aí. Para que perder tempo? Mais uma vez você encarna os gurus da internet. Usa seu tempo de forma mais inteligente. Trabalha enquanto eles dormem. A IA cuida do que você deve ouvir, elimina músicas diferentes do seu gosto e está ótimo.
Curiosidade: sabia que as músicas hoje são feitas sob medida para atender as demandas do algoritmo? A voz do cantor deve entrar nos primeiros 10 segundos e a música toda não pode passar de 3 minutos. Termos mais buscados como "ex", "bar" e "sofrência" ajudam a reter o ouvinte e têm mais chances de virarem novos hits.

Cenário 3. Você quer ver um filme interessante.
Antes, você lia resenhas ou via trailers nos comerciais até decidir. Às vezes, algum amigo indicava um achado. E você assistia no cinema, alugado, ou num arquivo em MP4 no computador mesmo. Tudo para conferir aquela obra de arte. Depois do filme (e dependendo da qualidade dele) começava uma nova etapa: ler, discutir e aprender com a obra.
Hoje, você abre o Netflix e pega o que estiver em alta, na tela inicial, logo de cara. Se muita gente viu é por que é bom, certo? Você vê meio sem paciência, conferindo o celular ocasionalmente. No final até sente algo, mas 1 hora depois já esqueceu daquele filme (que provavelmente era bem ruim mesmo).
Curiosidade: sabia que até os filmes hoje em dia buscam agradar o algoritmo? Tramas simples, duração curta e o reforço constante de argumentos no roteiro para competir com o celular pela atenção do expectador.
Em todos esses casos há IA.
Em todos esses casos fica escancarada uma verdade cruel: nós paramos de pensar. Pensar dá trabalho. Ainda mais se for algo novo, desafiador, como ler um livro. Exige-se um certo esforço, que não é nem de perto tão recompensador quanto ver um vídeo de 1 minuto engraçado ou chocante no feed do Instagram.
Na era da economia da atenção, delegamos tudo ao algoritmo, inclusive nossas decisões.
O que antes eram atividades que nos desafiavam, nos faziam pensar e, portanto, nos deixavam mais treinados, experiente e inteligentes, agora é substituído por uma anestesia que decide por nós em troca de um suposto conforto.
Esses dias vi um vídeo do excelente Canal Estranha História, em que o professor Henrique Caldeira contava como usava ferramentas para ajudar nos estudos. Após mostrar algumas funcionalidades, recomendou evitar pedir à IA que resuma o que você acabou de ler. Ao invés disso, ensinou, resuma você mesmo para ajudar a fixar o que aprendeu. E concluiu com a frase que eu vou guardar com carinho nesses tempos:
"Cuidado para não delegar demais à inteligência artificial e se tornar um burro natural".


